22 de fevereiro de 2018

Andrea Dietrich
Não podemos confundir “transformação digital” com “ser uma empresa digital”
February 28, 2018 – para Meio e Mensagem

Mas afinal o que quer dizer “transformação digital”? O tema está em alta nos grandes fóruns de discussão de negócios pelo mundo. A integração do digital com físico, o futuro do varejo físico, tecnologias aplicadas a eficiência e produtividade dos negócios, o futuro do trabalho, cultura startup e muitos outros temas derivados desses estão presentes na pauta estratégica de quase todas as empresas do mercado (se não estão, deveriam estar).

Mas na verdade existe uma grande confusão sobre o que fazer com tudo isso e por onde começar. Eu já atuei dentro de processos como esse e atualmente tenho apoiado consultivamente empresas que estão iniciando seus processos de transformação e acredito que possa contribuir um pouquinho para ajudar na compreensão das frentes envolvidas.

A verdade é que não existe uma formula padrão de como transformar uma empresa que sempre operou num formato, para ser digital, do dia pra noite. Alias, a confusão já começa por aí. Timing, gestão de mudança, sincronicidade de gestão de múltiplas frentes de projeto dão um baita trabalho e não costumam ser tão rápidas…

Importante entendermos também que Transformação digital é diferente de aquisição de ferramentas digitais, ou seja, vai muito além do desenvolvimento de um ecommerce, um aplicativo ou passar a investir em mídia no Google e Facebook. Essas frentes compõe um processo muito mais amplo e complexo.

Ser uma empresa “digital” tem muito a ver com a inspiração que vem das grandes empresas de tecnologia nascidas no Vale do Silício e que estão dominando seus segmentos de forma exponencial. Empresas como Google, Amazon, Facebook, que rompem paradigmas e nascem com um estilo bem diferente das empresas tradicionais. Diferentes em pilares essenciais como: evitam processos burocráticos e hierárquicos, são ágeis e inovadores; usam a tecnologia como core do negócio, ou seja, investem em ferramentas e inteligência constantemente para alavancar resultados; atraem e retém os talentos alinhados a uma cultura que estimula acerto e erro, o trabalho em grupo e colaborativo e centrada no consumidor.

Esse tripé de Processos, Tecnologia e Pessoas costuma ser a essência da transformação. Mas por onde começar? Eis o grande desafio, afinal temos que continuar a entregar o job do dia.

Mas nessas minhas andanças já entendi alguns pontos relevantes sobre o tema, que descrevo abaixo.

A alta liderança entende que precisa evoluir e transformar seus negócios mas ainda não conseguem entender as entregas práticas de tudo isso. Remodelar seus processos, sua cultura, suas pessoas e suas ferramentas requer dinheiro, tempo e foco. O medo o de sair da zona de conforto e de arriscar, impacta diretamente no andamento de qualquer movimento inovador.

Quando fala-se em cultura é comum os lideres se assustarem e interpretarem como “vamos todos virar o Google”, e não se trata disso. Transformação da cultura não quer dizer necessariamente mudar a essência dos negócios (sua missão, sua visão e seus valores), mas sim adequar os comportamentos, o modelo de gestão e contratação, passando até por revisão do modelo de remuneração e benefícios para estimular os fatores de sucesso das empresas nova economia: inovação em produtos e serviços de forma contínua, foco no cliente, construção de propósito claro para entrega de valor na relação com consumidores e obsessão por dados com entendimento profundo do consumidor.

Criar uma cultura digital também passa por revisar o modelo de metas (tradicionalmente estipuladas por canais e não pelo consumidor), passa por capacitar a equipe para entender o novo consumidor e se adequar a essa nova relação. Passa por buscar gente que gosta de servir e aprender constantemente, passa por entender que o sucesso só vem se existir erros.

Sobre tecnologia, provavelmente a sua atual estrutura tecnológica vai precisar ser revista para estar preparada ao novo tipo de entregas consumer centric e omnichannel (cliente como único em todos os pontos de contato com a marca e no centro da estratégia). O ritmo e processos de TI passam a ser totalmente remodelados e essa competência se fortalece sendo estratégica em praticamente todos os fóruns da empresa.

Importante lembrar que a tecnologia abriu um mundo de possibilidades para oferecermos uma experiência incrível para nossos clientes/ consumidores. Não podemos confundir “transformação digital” com “ser uma empresa digital”. Essa frase pode não servir para qualquer empresa. Manter a essência da marca e focar na experiência que ela quer proporcionar para seus clientes é o fato chave, e a tecnologia é o aliado para chegar lá.

Mas estávamos falando sobre “por onde começar”, e o que listaria como prioritário nesse processo é:

  • Fato, o presidente precisa ser o principal sponsor do movimento. Mais especificamente, esse tema precisa estar na agenda estratégica da empresa.
  • Tudo começa por pessoas, então identifique na organização (ou fora dela) pessoas que tenham visão, vontade e poder de influência para liderar as frentes de transformação.
  • Tenha claro qual o seu proposito da transformação. Lembrando que a tecnologia não é fim, e sim meio. O que vc quer entregar de valor para seu consumidor? Uma bom começo é definir seu MTP (usando como referência a metodologia aplicada pela Singularity University abaixo). Alinhe o objetivo com os principais lideres da empresa.

Singularity University MTP model

  • Comece por um assessment estruturado para entender o nível de maturidade nessas 3 principais frentes (pessoas, processos e tecnologia). Entendo seus gaps e oportunidades, fica mais fácil compreender o que falta para chegar no objetivo estabelecido.
  • Tenha um bom gerenciamento de projetos para priorizar entendendo a sincronicidade das frentes, o que depende de uma frente para a outra começar.
  • Engage os times, alinhe a empresa toda num mesmo sentido.
  • Dedique tempo e orçamento para esse movimento.

 

E para fechar, essa jornada não tem um começo e um fim determinados. Trata-se de um processo contínuo de evolução e transformações constantes, que o farão competitivos nesse novo sistema operacional. Então, desfrute da jornada, é incrível ser um agente de mudança 😉